EstevÃo Ribeiro
Uma lágrima
Mande a morte me esperar
Mande a morte me esperar
Pois não penso em ir tão cedo
É claro que ela me dá medo
Então cuidado quando lhe for falar
Mande a morte me esperar
Use todo aquele seu jeito
Assim lhe conquista o respeito
E quem sabe ela deixa eu ficar?
Mande a morte me esperar
Com aquele brilho encantador
O descanso perturbador
Que agora não quero encarar
Mande a morte me esperar
Diga que ainda há muito a ser feito
Nesse assunto eu sei que sou suspeito
Mas acho que ela vai te escutar
Mande a morte me esperar
Pois ela eu gosto e conheço
E só para mostrar o meu apreço
Estou lhe mandando em meu lugar!
Impressões
Tome meu desprezo como uma bênção
Minha exacerbada paixão pelo triste como uma canção
Minha mágoa pelo bom da vida como uma ação
Minha cara fechada como um reflexo do coração
Meus olhos perdidos, uma indagação
Minha fala corrida como uma explosão
Meu sorriso disfarçado, uma paixão
Um golpe de sorte, do divino uma compaixão
Essas breves e pobres linhas, um pedido de atenção
É difícil ser triste
É difícil ser triste
Como podem pensar que não?
Um coração amargurado
Dando sopa no mercado
É um artigo em extinção
Por que essa gente insiste?
Não vêem a solução?
Me deixem um pouco de lado
Sozinho, curtindo calado
O meu maior momento de solidão
E que grandeza consiste
Esses atos de devoção?
Não sabem que é errado
Tentar me arrancar um sorriso forçado
Depois pensarem que foi uma boa ação
Mas essa gente um dia desiste
De agüentar minha indignação
Irão me deixar de lado
E verei que estava errado
E, contra-gosto,
Sentirei a desolação
É de dar medo
Essa sua falta de apego
Por quem só lhe quer bem
Ainda encontra com aconchego
Nas ameaças de meu dedo
Uma forma de ir além
Ri do meio jeito
Ignora o que tenho no peito
Duvida de minha afeição
Diz que sou um tipo suspeito
Acho que não faço nada direito
Meus modos precisam de revisão
Mas não posso estar tão errado
Estamos do mesmo lado
Você tem que acreditar
Pois vivo pelo seu beijo molhado
Dado num momento regrado
Você não pode duvidar
O que posso fazer
Nada tenho mais a dizer
Para lhe fazer pensar
Que o que tenho a oferecer
Nada mais puro há de ser
Senão a minha maneira de te amar.
Meu rosto pelo chão
Num dia triste de verão
Andando sem direção
Encontro minha face
Jogada no chão
Me indago então
Sem ter uma explicação
O que faz aquela coisa
Largada sem razão
E levando para perto a mão
Em meio a convicção
Que se tratava de uma armadilha
Tramada pela mente ou o coração
Caio sem nenhuma noção
Dos danos com precisão
Tento levantar a todo custo
Daquela pequena confusão
Foi inútil minha dedicação
Só ganhei mais um arranhão
Pois estou bêbado;
Amanhã me acordarão...
Mortal
Chegaste cedo
Ontem mesmo lhe vi lá longe
Me flertando com respeito
Mas com um desejo sem igual
E exalando medo
Já não parece tão distante
Juntando forças não sei de onde
Fujo de forma irracional
Não sei se mereço
O que me propõe como fim
Não que seja de todo ruim
Não que seja de todo mal
Como disse não estou triste
Mas não queria que fosse agora
Mas já é hora de ir embora
É o que se paga por ser mortal
Rendição
O que falar sobre você?
Sei que és vil, pois tomaste meu coração,
Me ouviste dizendo-te “não”
E mesmo assim quis-me ter
O que me forças a fazer?
Sou o homem da relação
Sei que tens mais educação
Mas não é assim que deveria ser!
Sou motivo de chacota!
Falam que não sou emancipado
Que não vivo sem você do lado
Desta semana sou a fofoca!
E ninguém mais me respeita
Dizem que não sou mais o mesmo
Vivo andando a esmo
Até meu pai de mim suspeita!
Mas agora quero ter certeza
Não adianta seu choro molhado
Não me encoste este corpo suado
Vamos pôr as cartas na mesa:
Tu és bruxa, minha filha?
Você me pôs um feitiço
E eu nem preocupado com isso
Deixei-me cair em sua armadilha?
Tudo bem, direi o queres ouvir
Dane-se se pelos machões é é ouvido
Pois deles virei inimigo
E de desafetos que quiserem vir
Eu te amo
Faça de mim o que quiser
Não sou forte nem inteligente
Pois sou homem, não sou mulher!
Fale...
Fale, mas seja breve!
O sentimento de perda que me consome
Já me abastece de filosofia
Pelos próximos dez anos
Mas grite
Essa máscara me afasta de mim de tal forma
Que só assim poderei notar
O seu brado como um sussurro
Ou me ignore
Poupe-me da alegria de sua atenção
E me esfregue na cara
A minha vocação para o fracasso
Me prive do desgaste da luta
Ouça esse apelo covarde
Me deixe no chão úmido
Para que possa morrer em paz
Ou me salve
Prove-me que estou errado
Jogue-me na cara que és capaz
De mudar inteiramente a minha vida
Me diga que discorda
Que tudo que eu prego é inútil
Que nem a derrota
Eu tenho como dom
Tire-me o sentido
O mal que carrego comigo
O motivo por qual tenho vivido
Tire-me a vontade de chorar
De repente
De repente
Me senti quente
Quando você rapidamente
Passou por mim
Assim rente
Com um olhar envolvente
Que te mostrava tão carente
Me seduziu completamente
E isso me tornou
Uma pessoa diferente
E até pensei que essa mudança
Seria permanente
Mas eu, impertinente
Me comportei como um delinqüente
Que não enxerga um palmo à frente
Deixei você partir
E conseqüentemente
Sofri amargamente
Por perceber tarde demais
Que estava sozinho... novamente
Dormir de máscara
Certa vez eu tentei dormir de máscara.
Resolvi deixar aquela coisa que carregava no rosto ali mesmo e fui para cama.
Nada de tristeza ao tirá-la, nada de encarar meu rosto cheio de culpa e mágoa.
O engraçado foi olhar para o espelho da porta aberta do guarda-roupa.
Vi uma face branca, inexpressiva, numa posição nunca vista antes.
Não era a de sempre, a de espreita nem mesmo a de mágoa.
Era tão indefesa... Chegava a dar vergonha.
A minha primeira reação foi tentar tirá-la, mas resisti.
Não havia culpa, finalmente.
Nenhum princípio de ruga. A sobrancelha não sinalizava o choro.
Os lábios não arqueavam para baixo, formando um beiço vergonhoso.
Nada. Seria finalmente uma noite de paz...
Se não fosse uma maldita voz ecoando em minha cabeça:
- Durma bem, seu covarde...
Tirei a máscara e chorei até cair no sono...
Taciturno
Se não me chamassem de Tristão
Decerto não foi idéia minha
Talvez a coisa se complicasse
Imagine se eu me batizasse?
Ao invés desse nome publicado num jornal
Dado por alguém bem humorado
Fosse um de minha vontade
Eu me chamaria de... ah, não sei
Não sei como chamar
Essa máscara que é outro eu
Talvez porque no final das contas
Ela não seja outra coisa a não ser eu
Um eu irresponsável
Que prefere a tristeza à redenção
Um ser da noite, taciturno
Taciturno? Taí...
Anjo
Anjo, meu doce anjo
Pode deixar que eu me arranjo
Você pode ir e sozinho me deixar
Pois certamente eu irei suportar
Anjo, meu doce anjo
A quem quero enganar?
Esse espinho que trago no peito
Ninguém tem como tirar
Nem mesmo eu, meu doce anjo
Então, como eu me arranjo?
Desisto, pulo no abismo para lhe encontrar
E as conseqüências terrenas deixo de enfrentar?
Responda, meu doce anjo
O que devo encarar?
A vida, em seu desarranjo
Ou o fim, fácil de se tomar?
Como sempre, meu doce anjo,
Você acalenta todo o meu pranto
Por mínimos segundos enquanto durmo
E depois acordo em desencanto
Início de um choro
"Quando vejo o sangue da minha espada manchando a minha mão, penso que o precioso líquido que tirei do pobre diabo que escolheu o caminho errado não remedia os meus erros, tampouco me deixa mais feliz. Então penso em Elisa, minha pobre menina, que de inocente só tinha o olhar. O mesmo maldito olhar que não me deixa em paz."