EstevÃo Ribeiro
Contos
A terrível noite das últimas horas de minha vida
A noite me assusta de um modo que não consigo pensar em dormir.
Peço a Deus mais um dia de vida, pois o último, como todos os anteriores, estava com defeito. A felicidade apareceu tão curta que parecia uma daquelas amostras grátis de supermercado. Você compra muito mais pela dúvida, pois um tiquinho de nada não lhe dá satisfação para dizer: “- Agora eu morro feliz!”.
É, não dá. Perco-me na Internet para enfrentar o sono ferrenho. Eu não quero dormir. É nessas horas que sou indefeso, pois até meus olhos me traem. Cobertos pelas pesadas pálpebras que teimam em fechá-los, eles me entregam de bandeja à escuridão e ao delírio da minha mente perturbada.
Com o sono me vencendo, me vejo enfim ferrado. Tudo o que eu mais temo acontece. Imagens desconexas são descarregadas tão rapidamente que eu não consigo pescar nada para jogar de manhã no bicho, considerando que eu sobreviva mais uma noite...
Meu ar é pouco. Eu acho que mais uma vez estou com a cara no travesseiro. Não seria a primeira vez que isso acontece, mas sempre acordo antes do suspiro final. Até agora, eu estou ganhando de... bem, vamos ver. Tenho pânico de morte desde os 14 e me encontro com 27, o que dá 4745 dias. É... 4745 para mim e zero para a morte... É um bom placar. Ainda mais porque, se a morte ganhar uma vez, o jogo acaba. Enquanto penso nisso percebo que meu ar não volta, eu ainda não acordei. Gritar seria uma boa tentativa de acordar, mas já cansei de meu grito abafado de desespero que não me traz paz alguma...
Acho que agora devo agir serenamente, esperar que o bendito travesseiro me sufoque, que não sobre nada para o coração bombear, que minha vida cesse dentro de um pesadelo que não me deixa sair, me abraçando e me levando para a enfim, um lugar onde eu possa dormir em paz.
E sabe o que será mais interessante? Minha épica luta nunca presenciada por ninguém dará margem a comentários que só servem para consolar meus amigos e familiares:
“- Pelo menos, ele não sofreu nada... Morreu dormindo!”